Uma chaleira com dois bicos serve duas xícaras; à esquerda, o vapor se fragmenta em ângulos, e à direita se dobra em faixas suaves. Um cubo laranja fica entre elas.
Abertura — a mesma bebida chegou com duas formas de vapor.

Veja
Tenho em minhas mãos uma
Laranja
Uma laranja inteira
Eu acho ela
Particularmente
Ácida demais
Mas você toma de mim
Ri
Morde e diz-me
Que é doce
Sou cego de olfato
Você fecha os olhos, cheira
Me puxa pelos braços
Me diz que é ótimo o faro
Dessa laranja inteira
Doce em você
Azeda em mim
Mas há certas grandezas
Que vamos concordar
Essa laranja é redonda
Eu digo
Você franze as sobrancelhas
Me empurra e diz
Que não é
Sou utópico em achar
Que ela é qualquer coisa redonda
Qualquer círculo utópico
De uma laranja perfeita
Somaria 360 graus
Essa laranja nunca somaria
360 graus
Ela é real demais
Você diz
Em algum momento ela
Caiu do pé
rolou no chão
Foi pega por mãos com calos
Encaixotada
Transportada em carreta
Manuseada por vários
Antes de dar cá
Entre nós dois
Essa laranja é real demais
Pra somar 360 graus
Você enfia um pedaço
Na minha boca
Ri quando faço um rosto
Engraçado
E de fato
Somos nós dois reais demais
Pra somarmos 360 graus
Mas somados os dois
Podemos ser qualquer coisa
Entre o real
E o utópico
Tudo que você quiser

À margem

a fruta entra inteira; o consenso, não.

À margem

o primeiro desacordo já cabe numa mordida.

À margem

a geometria acaba de pedir a palavra.

À margem
Um cursor laranja une duas fileiras de zíper com dentes de tamanhos diferentes.
À margem

depois de tantas mãos, ela chega exatamente entre duas.

À margem

o título faz a conta sem exigir resultado exato.

Dois suportes cerâmicos inclinados sustentam uma prancha horizontal; um pequeno pino laranja fica sob o centro.
Fecho — duas inclinações conservaram a superfície em equilíbrio.