Uma máquina de escrever recebe pelo rolo uma faixa estreita de fumaça no lugar do papel; ela emerge com marcas de grafite sem letras legíveis, e a alavanca é laranja.
Abertura — a fumaça entrou na máquina ainda morna.

Posso rabiscar palavras
mornas do calor
desta fumaça que corre
nos lábios na boca
escorre os pulmões e volta
destilada daquilo que sou
alguém careca disse que
andamos com uma bomba-relógio
posta em nossos bolsos
está a explodir a qualquer
tempo que seja
tic tac do tempo
tic noc tac
Ti en Ti
que carregamos mordida da boca
do nascer molhado claro fotofóbico
com olhos de médico de mãe
de enfermeiras
até a cama mais cara
do hotel mais caro
da suíte presidencial
de um hospital branco
fechamos os olhos e
tic
tac
posso rabiscar palavras mornas
do calor
que acelera o relógio
posso beber dessa bebida
gelada morder os gelos
destruir os pirulitos
mastigar o limão
mastigar o canudo
acelera o tic tac do relógio
acelera com essa música de batida forte
que bate no ritmo do meu peito
suado molhado da chuva
de pessoas de gente
gente como a gente
tic tac do relógio
posso ver um filho nascer
escolher um filhote
de cachorro
posso odiar meu chefe
posso odiar meus pais
posso amar uma pessoa
mais do que amo a mim mesmo
tic tac do relógio
posso odiar aeroportos
e amar viagens longas
longes
posso ter tudo e mais um pouco
desde que esta bomba se inicia
até quando essa bomba
explode

À margem

a fumaça escolheu o caminho de volta.

À margem

o tempo ganhou som antes de ganhar medida.

À margem
Um pequeno disco de vinil tem uma fatia de limão no centro; um canudo repousa sobre ele como braço de toca-discos, preso por um pivô laranja.
À margem

a música assumiu o trabalho do ponteiro.

À margem

o refrão não escolheu entre amor e raiva.

À margem

a última palavra fechou o circuito da bomba.

Vista de cima, quatro bandejas numa esteira levam um sapatinho de bebê, uma coleira vazia, um crachá sem texto e uma almofada de viagem; uma batuta laranja atravessa as quatro.
Fecho — quatro bandejas, um só compasso.