Um garfo enorme atravessa sem quebrar o fundo de um copo; suas pontas se apoiam no chão e erguem a mesa, com um pequeno porta-copo laranja.
Abertura — um talher levantou a cozinha.

Tem um garfo dentro do copo.
Tem um garfo dentro do copo.
Ai, ai, ai meu Deus meu toque!
Tem um garfo dentro do copo!
Vou quebrar. Vou quebrar.
Vou quebrar o garfo.
Vou quebrar o copo.
Tem um garfo dentro do copo.
Tem um copo com garfo dentro.
Quem foi que colocou esse garfo dentro do copo?
Quem foi que desestabilizou todas as contas,
ferrou todos os cálculos,
toda a matemática do universo
Que tirou os planetas de órbita,
Que ameaçou extinguir a raça humana e todas as outras raças
acrescendo monstruosamente a entropia do universo
pondo um garfo dentro do copo?
É uma blasfemia, um pecado mais pecado que a gula,
mais pecado que a luxúria, mais pecado
que todos os pecados juntos,
quem foi o maldito que colocou
Um garfo
dentro
do copo?
Filho da puta.

À margem

a pia perdeu a jurisdição.

À margem

o universo entrou na lista da louça.

À margem

o julgamento dispensou a sobremesa.

Um copo vazio sobre uma bancada projeta a sombra enorme de um martelo de juiz no chão, com um pequeno pano laranja sob o copo.
Fecho — o copo chegou a julgamento.