Menino se esconde dentro do oco de uma raiz enquanto sua sombra escapa correndo ao redor da árvore e uma criança menor persegue a sombra.
Abertura — ele se escondeu; a sombra continuou brincando.

Maio de 2012

Nota do Autor

Nos primórdios de 2012, no começo da década que já acabou, decidi estudar e escrever uma biografia em contos deste homem extraordinário que tanto me impressiona por suas músicas, sua arte e sua vida. Baseado em documentários da vida dele construí uma história que nunca terminei. Decidi publicá-las aqui, diariamente, e terminar essa obra que merece um final, ainda que tantos anos e tantas aventuras depois.

Foi minha intenção original que as pessoas não soubessem, contudo, de quem se trata a história e descobrissem por si sós ao seu próprio tempo. Quem seria afinal, o garoto de Aberdeen?

Terças e quintas, às 11 da manhã.

Uma boa leitura :D

Um arbusto é acertado por um pedaço de pau. Surge de trás das árvores um par de olhinhos azuis e um sorriso angelical. Joga os cabelos loiros pra trás enquanto acerta outro arbusto. Avista uma pequenina correndo em sua direção e dispara pela floresta

Atira seu galho nuns arbustos. Vira numa trilha e dispara por ela. Passa por umas castanheiras e desvia. Salta um tronco, vira à direita e se enfia num buraco. Bufando.
Tenta controlar a respiração e ouvir. Em vão. Escuta de longe a vozinha gritando aflita:
- Kurt, cadê você Kurt? - e se enfia mais no buraco.
De repente os gritos param e os passos desaparecem. Ele espera dez segundos de respiração suspensa. Nada. Vinte segundos. Nada. Ok, ela deve ter ido pra casa, será? Provavelmente, ele pensa. Respira soltando o ar e se prepara pra sair do buraco quando uma criança de uns dois anos se joga em cima dele.
- Te peguei Kurt! - e solta uma gargalhada de garotinha. - Te peguei, te peguei, te peguei!
— Não é justo, Kim, você fica cada dia mais esperta. — Ele faz uma cara de bravo.
- Kim pegou o Kurt! Kim pegou o Kurt!
— Tá bom Kim, mas sabe quem vai te pegar agora? Rawr! - ela grita e corre, finge tentar agarrá-la deixando que ela corra.
Sai do buraco e bate a terra da roupa. Tira alguma coisa do nariz e pega outro pedaço de pau no chão. Conta um, dois, três e corre atrás da irmã. Corre por algum tempo até perceber que realmente a perdeu. — Kim?! Onde você está, Kim?
Silêncio.
Ele corre de um lado para o outro chamando e nada. Procura nos arbustos e atrás das árvores, repassando mentalmente as palavras de sua mãe para não sair de perto da irmã. E mais, se lembra dela dizendo para tomarem cuidado com o rio. - O rio! - Kurt corre com o máximo que suas pernas de cinco anos de idade permitem, em sua mente já repassando as coisas ruins que poderiam acontecer a sua irmã. Chega às margens bufando - Kim! Onde você está? - escuta uma risada baixa em algum lugar da direita - Kim? - caminha lentamente, pensa ter visto os cabelos loiros da irmã em algum lugar no rio, se aproxima, a terra não suporta o peso e ele é tragado pra dentro d'água.

À margem

o narrador contou até vinte e perdeu o esconderijo.

À margem

a floresta ainda não tinha recebido as regras por escrito.

- Kurt! - a garotinha dispara de trás de um arbusto pra onde viu seu irmão desaparecer alguns segundos antes - Kurt! Para com isso Kurt! - para na beirada do rio e olha desconsolada a água abaixo - Kurt, fala comigo Kurt - e começa a chorar.
Algo sai da água e pula sobre ela, que cai gritando.
-Rawr! Te peguei Kim!
-Para Kurt, nunca mais faz isso - diz a menina rindo, limpando as lágrimas.
-Vamos pra casa. - decide, levantando-se todo molhado e sujo de terra.
Pensa que sua mãe provavelmente vai matá-lo, mas não importa. Vai cantando Beatles e corrigindo sua irmã quando erra a letra. Entra pela porta dos fundos para não ser pego e se depara com seu pai fumando de braços cruzados.

À margem
Uma mão infantil molhada tenta tocar uma folha seca que foge sobre duas pernas de carvão; o caule traz um pequeno gesto laranja.

-Posso saber o que aconteceu?
Kurt olha pros olhos do pai, duros, pedindo auxílio. O pai cede.
-Tudo bem, tire a roupa aqui e corra pro chuveiro, antes que sua mãe te veja. Kim, se enfie debaixo das cobertas e finja que está dormindo.
Dá um tapa leve na bunda dos filhos enquanto eles correm pela casa.

Kurt entra no pequeno banheiro e se olha no espelho. Seu rosto está todo sujo de terra molhada, e ri. Lá fora escuta sua mãe gritar algo incompreensível. Espera que não seja com ele. Seu pai grita alguma coisa e parece haver uma discussão. Kurt liga o chuveiro e continua a cantar, fazendo os sons da briga desaparecerem. Toma seu banho tranquilo, e quando sai a briga parece ter acabado. Seu pai está novamente na cozinha e a mãe vê televisão na sala. Ele sobe e troca de roupa, desce e pergunta para o pai quando seus avós vêm visitá-lo:

À margem

o chuveiro aumentou o volume da casa.

-Amanhã meu filho, amanhã.

O dia transcorre sem maiores complicações, com Kurt desenhando na mesa da sala enquanto Kim tenta dançar algum tipo de balé, caindo no chão volta e meia, e sempre que está prestes a chorar, basta o pequeno Kurt dar uma gargalhada para que ela ria junto com ele.
-Tá bom, já chega, já pra cama os dois - Diz a mãe.

À margem

o balé caiu; a gargalhada fez o curativo.

Beija a testa dos dois anjos e sai do quarto, apagando a luz. Na escuridão, um sussurro:
— Ei, Kimberly?
-Que foi?
-Vovô e vovó vêm nos ver amanhã.
-Papai disse?
-Sim, disse outro dia que quando eles viessem iam trazer mais CDs pra gente.
Silêncio
-Kim? - a menina adormeceu.
Kurt rola na cama sem conseguir dormir. Pensa em John Lennon, se imagina sendo um astro de rock e tocando pra milhões de fãs, a música Hey Jude volta à sua mente, e cantando e cantando o garoto adormece.

À margem

milhões de fãs. por enquanto, uma irmã dormindo.

Duas crianças dormem em camas separadas; o cobertor do menino se desdobra numa enorme cortina de palco, um galho projeta um pedestal de microfone e um urso com uma cadeira vazia formam a plateia.
Fecho — milhões de fãs cabiam provisoriamente em duas camas.