Menino para diante do sofá, onde um homem barbudo ocupa o assento ao lado de uma silhueta adulta apagada no estofado.
Abertura — o sofá já tinha dois lugares ocupados: um por Jason, outro pela ausência.

Ele bate a porta e ninguém atende.
Bate de novo. Nada.
Está começando a pensar se sua mãe não se pendurou na sala quando a porta abre:

— Kurt. — Ela tem um olhar aflito.
Entra na casa procurando alguma coisa errada.
— Mãe, o que...

Há um homem barbudo, fedendo a desodorante sentado no sofá.
— Esse é Jason, meu filho. Ele é... bem. Ele é meu novo namorado.
— Mas que merda é...
— Filho...
— Tudo bem, mãe. Foda-se. Não precisava substituir meu pai depois de duas semanas.
— Filho!
— Dane-se! — Sobe as escadas e bate a porta do quarto.

À margem
Almofada de sofá com uma depressão vazia e uma pequena barba de carvão saindo da costura.
À margem

duas semanas cabem numa frase; nele, não.

Mike havia esquecido uma garrafa de vodka meio cheia em seu quarto outro dia. Ele nunca havia bebido aquele tipo de coisa. Bebeu umas cervejas uma vez e cuspiu, pensando que tinha gosto de terra, nem imaginava qual era o gosto daquilo.

Não podia passar pela sala, de modo que pulou a janela, do que se arrependeu logo depois. Algo que parecia um martelo acertou sua coluna e doeu horrivelmente, mas se obrigou a não gritar.

À margem

o corte de cena acerta a coluna antes do chão.

Correu, antes que sua mãe percebesse sua ausência. Se mandou pelas ruas com vontade de vomitar de dor e remorso. Um cara daqueles com sua mãe. Um cara daqueles beijando sua mãe, como Polly o havia beijado outro dia. Nojento. Horrível. Uma música lhe vem à cabeça e parece se encaixar estranhamente ao momento:

Tudo bem, talvez não o primeiro verso, mas o segundo sim. Pensou na escola. Pensou em como foi esquisito ver Dolly no outro dia de manhã e como ela ficou envergonhada e fingiu que não o conhecia. Pensou em como estava com raiva o tempo todo e seus colegas já tentavam evitá-lo a todo custo. Dane-se.

A vizinha rega as plantas e vê o garoto de oito anos passar correndo com uma garrafa de vodka, cantando alguma coisa pesada. — “Deve ter pensado que eu sou paranoico” — pensou. — “Talvez eu seja.” Riu pra si mesmo.

Chega ao parque. Arranca a tampa da garrafa e bebe de uma vez. Consegue chegar ao segundo gole antes de vomitar. Berra de ódio de sua mãe pelo que fez. — Vadia! Vadia! Vaca desgraçada! — Termina novamente com um berro e limpa o gosto de vômito dando uma golada mais segura.

À margem

o segundo gole já sabe o caminho de volta.

Berra a letra da música, chora e bebe de novo — Vadia!

Tenta se levantar, mas não consegue. Tropeça e cai na beirada do lago, encharcando as calças. Dá murros no barro até que a lama ganhe filetes de sangue. Se arrasta pra fora e bebe mais.

Kurt perde as forças, deita no chão e fecha os olhos.
E dorme.

À margem

fim de capítulo; péssimo travesseiro.

Menino caído na lama junto ao lago; a curva da margem e um círculo de água formam uma enorme pálpebra fechada.
Fecho — o lago fechou os olhos antes dele.