Rapaz caminha rumo a um lago; do bolso sai uma fotografia em branco que se transforma em faixa d'água com quatro reflexos separados por um risco laranja.
Abertura — algumas fotografias carregam o próprio lago.

-Você não pode fazer isso comigo!
-Já fiz. - exclamou baixo e com olhos tristes o pai. Deu um beijo na testa de Wendy, pegou Kim e a pôs nos ombros, agarrou as três malas empilhadas e saiu de casa.
Kurt não conseguia chorar.

Não conseguia acreditar. Estava petrificado. Olhou para a porta fechando e o barulho ecoou em sua mente, continuado pelo choro alto de sua mãe.
- Eu te odeio Donald Cobain. Você não pode fazer isso comigo! - gritou, pegou um quadro na parede e jogou no chão. Quebrou um porta-retrato da família com as mãos e sangue pingou no tapete branco. Caiu no chão berrando - Não pode! Não pode! Donald! Don! Volte aqui Don!

À margem

a porta bate uma vez; o eco prefere repetir.

Mas ele se foi.

Kurt pegou a foto suja de sangue do chão e olhou-a. Guardou no bolso e saiu da casa pela porta dos fundos.
Caminhou pela floresta. Lembrou das brincadeiras que teve com Kim. Sua irmãzinha que ele tanto amava e agora não ia ver mais. Caminhou inerte até o rio e pensou em se jogar nele. Mas não tinha forças pra fazer sequer isso. -"Kurt, cadê você, Kurt"? a voz doce da pequena ecoava em sua mente. "Nunca mais." Ele pensou. "Nunca mais".

À margem
Moldura de carvão sustenta quatro cantos vazios; uma impressão digital laranja marca a borda.

Não soube como, mas se viu vagando pela rua. Caminhava no asfalto e havia tirado a foto do bolso. Olhava pra ela e tentava encontrar algum lugar dentro de si mesmo para se proteger. Eles não podiam fazer aquilo com ele. Não podiam. Era errado. Por que as pessoas casam? Por que as pessoas se amam se é para terminar tudo daquele jeito? Ele jamais ia amar, decidiu.

À margem

a cena tenta acompanhá-lo; a fotografia chegou primeiro.

Vagava pelas ruas. Chutava latas e ignorava as pessoas. Não se importou quando uma viatura da polícia passou. — Por quê? — falou baixo pra si mesmo. — Por quê?

Foi pra casa de Mike, bateu na porta e esperou. Estava prestes a ir embora quando a mãe dele abriu a porta. Não prestou atenção no que ela disse e alguns momentos depois o amigo estava na sua frente.
— Que foi, Kurt?
-Ainda tem aqueles baseados?
-Fale baixo! Quer que a casa inteira escute? Me espere nos fundos, está bem?

Foram até os bancos do parque, escolheram um lugar próximo ao lago. Mike bolava com habilidade enquanto pensava em como perguntar ao amigo o que acontecera.

À margem

o lago recebe o silêncio antes da conversa.

- Oi?

Ele canta baixo.

Mike termina de bolar. Saca o isqueiro e acende, dando um primeiro trago.

-Kurt, o que aconteceu? - estende o baseado para o outro, que pega e traga, mas não responde.

- O que você está falando? Não consigo te escutar.

-Eu odeio todo mundo, Mike.

O garoto traga profundamente e engasga. Passa o baseado.

Kurt ri enquanto canta. Suas mãos apertam o banco com mais força do que deveria.

À margem

a trilha saiu de quadro; a cena continua apertando o banco.

Kurt gargalha.

- Está escurecendo brow, vamos pra casa? Para com isso Kurt, é sério.
Silêncio.
-Kurt?

Ele recomeça a cantar baixo.

Não consegue segurar, mas se esforça; precisa terminar a música. Seus olhos enchem d'água, suas mãos tremem vermelhas agarrando o banco...
Não consegue mais segurar. Cai de joelhos no chão e chora.
Não tem mais uma família afinal.

Uma coruja pia e o dia se foi.

Banco vazio à beira do lago perdeu a própria sombra, que flutua como uma fotografia escura; uma coruja pequena repousa no encosto.
Fecho — até a sombra encontrou outro lugar para ficar.