Porta de quarto pulsa como pele de tambor; ondas pelo corredor erguem tapetes e cercam uma mãe que se aproxima.
Abertura — o quarto inteiro batia antes da porta.

— ... o gato se enfiou no telhado e não quer mais sair de lá, Srta. Cobain...
— É Fradenburg, Srta. Taylor...
— Oh, me desculpe, é Fradenburg novamente? Mas meu marido não consegue trabalhar e dormimos mal essa noite. Faça alguma coisa ou vamos ter que chamar a polícia, você sabe como é...
— Não se preocupe, eu vou falar com ele. Tenho certeza de que vai entender.
— Obrigada, realmente obrigada!
— Não tem de quê...

À margem

o gato no telhado agradece o álibi.

Ela fechou a porta e suspirou. Era o quarto vizinho que vinha reclamar. Seu filho estava completamente fora de controle tocando aquela bateria que ganhou do avô todos os dias até as mãos doerem. Dessa vez havia começado a tocar de madrugada, e se nem nas outras casas conseguiam dormir, para ela havia sido impossível. Mas não conseguia punir o garoto, mal conseguia imaginar o que ele estava passando.

À margem

quatro vizinhos contam o som; ninguém conta os passos no corredor.

Recusou-se a ir silenciá-lo e Jason, que estava dormindo lá naquela noite, fez algumas coisas de que ela não gostava de se lembrar.

Caminhou vacilante indo em direção ao quarto de Kurt. Suas costas doíam e seu braço estava rasgado de golpes de cinto. Ela precisava fazer o filho parar.

Ouviu o som de dentro do quarto. Em meio a golpes de bateria, bateu na porta, mas duvidava que seu filho houvesse percebido. Tentou abrir a porta, mas ela foi barrada pela cômoda, arrastada até ali para impedir que alguém fizesse exatamente isso. Empurrou e gritou pelo nome de Kurt, as lágrimas dominando-a. E, de repente, o som para.

À margem

a trilha sobe o volume justamente onde o leitor deveria escutar.

— Que é? — A porta só abre uma fresta.
— Filho, os vizinhos estão pedindo... pra você abaixar o som...

À margem
Porta entreaberta é detida por um pedal de bumbo; três ondas sonoras viram um ponto do lado de fora.

-Dane-se os vizinhos.

— Filho! — Ela põe o braço para impedir que a porta se feche.
Kurt a encara.
— Eu te amo! — ela diz.
— Dane-se você! — E se prepara para fechar a porta no braço dela.
— Mãe, o que é isso? — Ele olha, assombrado, para os machucados.
— Não é nada... é só... não é nada.

À margem

o susto troca de rosto pela fresta.

Tira o braço do vão e se afasta correndo. Numa olhada de relance, vê seu filho olhando, incrédulo, nos seus olhos.

A última coisa que escuta é um uivo, e os sons da bateria sendo destruída e jogada pelo quarto.

À margem

o silêncio chega desmontado.

Bateria destruída no quarto; o rasgo do bumbo enquadra mãe e filho frente a frente, enquanto um cinto fica no chão.
Fecho — quando o instrumento se cala, sobra o que ele encobria.