Um menino desenha numa mesa baixa; no banco vazio ao lado, um segundo lápis se move sozinho, e as duas linhas transformam o chão do quarto em parque e lago.
Abertura — a segunda cadeira já tinha começado a colaborar.

Maio de 2012

O pequeno Kurt está deitado no carpete de seu quarto rabiscando um Aquaman perfeito enquanto assobia qualquer tipo de música. Olha pra frente e percebe um par de cadarços desamarrados. Olha pra cima e vê um garoto de cabelos e olhos pretos, com um sorriso estampado na face, olhando pra ele.
- Olá Kurt.
— Boddah! Há quanto tempo você não me visita! Sente-se comigo. Por onde tem andado?
— Você sabe, por aí.
— Deve ter ido se meter na floresta de novo — Kurt ri. — Você adora aquele parque.
- E aquele lago - reflete o menino
- E o lago! Deus, quanto tempo eu não vou até lá?
- Muito tempo, tanto é que me esqueceu.
- Pare com isso, você sabe que eu não podia ter esquecido de você. Vem, me ajude a compor uma música como pedido de desculpas.

À margem

o quarto recebeu visita sem registrar entrada.

À margem

o roteiro aceita pagamento em refrões.

O outro menino ri, senta ao lado de Kurt e se apoia no armário.
— Que tipo de música vamos compor?
— Ah, vamos compor alguma coisa que nos deixe podre de ricos. Sobre o parque então, sim?
— Tudo bem, sobre o parque. Mas você sabe que não sou bom nessas coisas.
— Bobagem. — E começa a assoviar um ritmo, variá-lo e tentar criar um som novo, até que alcança o que deseja. — Pronto, já temos nossa melodia, Boddah.
- Não sei como você consegue essas coisas.

As árvores cheiram forte.
O cascalho dói meus pés.
Boddah mora lá, Boddah mora lá.

— Não pode pôr meu nome na música! Seus fãs nunca vão entender.
-Claro que vão, é só apresentar você pra eles.
-Quero ver você conseguir fazer isso.
-Fique quieto, deixa eu pensar.

À margem

a apresentação oficial ficou para depois do primeiro sucesso.

Os pássaros cantam doce,
No lago eu vejo o céu,
Boddah mora lá, Boddah mora lá.

-Já disse que não sei como você faz isso?
-Fique quieto, deixa eu terminar!

Ah! Boddah é livre e é rei,
Vive como eu jamais viverei,
Queria morar com Boddah,
Boddah mora lá, Boddah mora lá.

— Você não pode fazer estrofes de três versos e depois construir uma de quatro.
- Posso sim, sou eu que estou escrevendo, e fique quieto!

À margem
Três degraus de carvão tentam alcançar um patamar de quatro encaixes; uma pequena extensão laranja improvisa o passo ausente.

A terra está coberta de neve,
As árvores estão nuas,
Boddah está com frio, Boddah está com frio.

O vento vem do mar e é gelado,
Posso caminhar sobre o lago,
Boddah está com frio, Boddah está com frio.

Ah! Boddah é livre e é rei,
Vive como eu jamais viverei,
Queria morar com Boddah,
Boddah mora lá, Boddah está com frio.

A porta abre.

— Com quem você está conversando, filho?
— Com Boddah, mãe! Ele exclama, sorri e aponta para o outro menino.
A mulher olha para o vazio.
— Essa história de amigos imaginários de novo? Você já passou dessa fase. Desça rápido, sua comida vai esfriar.
O menino olha desiludido para o outro, que esboça um olhar triste. Boddah balança a cabeça.
- Adeus, Kurt.

E desaparece.

À margem

a porta abriu; o elenco diminuiu.

A porta aberta risca um arco laranja pelo quarto e apaga pela metade o segundo banco; um menino segura dois lápis enquanto uma mão traz um prato fumegante.
Fecho — a porta abriu e revisou o elenco.