Cama desfeita vira ringue de boxe e uma das cordas se transforma em linha de monitor hospitalar.
Abertura — o quarto montou o ringue antes de acordar.

Kurt chuta as pernas dele, dá um soco na barriga e o novo namorado da mãe desaba no chão.
— Filho da puta! Por que você bateu na minha mãe?!
— Oh! Eu não sabia que você era tão forte! Por favor, não faça isso!
Mas o garoto não se importa. Espanca o homem mais velho e quebra todos os ossos do corpo dele. Há gritos. Gritos, gritos e mais gritos. Berros. Berros que vão se tornando cada vez mais reais. Impossivelmente reais.
— O que você fez?! — o homem grita. Mas Kurt continua espancando-o. — O que você fez?! — E Kurt chuta, soca, até morde e arranca uma orelha. Os berros crescem e vão se tornando femininos e, para seu desespero, Kurt descobre-se batendo na sua mãe. — O que você fez?! — ela grita e chora pra ele, caída no chão. Kurt para, atônito, e acorda.

À margem

o sonho ensaia o golpe; a casa corrige a escala.

— O que você fez?! — O som vem do andar de baixo. O garoto pula da cama e corre. Desce as escadas voando, e lá está o namorado dela com uma garrafa de whisky na mão, gritando. Sua mãe está deitada no chão, chorando, com o braço desfigurado numa direção estranha. O garoto berra e corre pra bater no homem, toma um tapa na cara e cai no chão, atordoado.

À margem
Despertador tem uma campainha em forma de travesseiro e outra em forma de tala, com ponteiro voltado para uma porta.

— O que você fez, seu desgraçado!
— Isso é pra você aprender a respeitar os homens e saber o seu lugar, mulher. — E toma outro gole do whisky.
Os vizinhos escutam e chamam os policiais, que chegam e levam sua mãe para o hospital. O monstro fica em casa e Kurt a acompanha.
Os médicos a atendem rápido. Em um minuto, o braço está no lugar e sua mãe está deitada, acabada. Passa as mãos na cabeça dele e parece que vai dizer alguma coisa, mas desmaia.

À margem

os vizinhos ouviram. a parede já sabia.

— Você tem pai, garoto?
Um homem de bata branca e meio careca olha-o com uma expressão de compreensão.
— Tenho, sim. Que é?
— Sabe como posso falar com ele?
Kurt diz os números, o homem pede um instante e sai. O garoto se senta no banco e fica consternado. Sua mãe está ali do lado, desacordada e cheia de hematomas. Vai matar aquele filho da puta, jura. Vai matar aquele filho da puta duas vezes. Vai passar uma faca no pescoço dele enquanto ele dorme. Aquele monstro não vai sobreviver mais um dia...
— Sr. Cobain?
Não respondeu, ninguém nunca o havia chamado daquela forma antes.
— Sr. Cobain? — Kurt olha com olhos frios pro homem de bata, que começa a irritá-lo.
— Que foi?
— Seu pai disse que está vindo pra cá. Vai buscá-lo e levar você pra morar com ele. Tenho certeza de que tudo dará certo. Relaxe, o pior do pesadelo passou.

À margem

duas mortes prometidas cabem num banco de hospital.

À margem

ninguém avisou que ele já tinha sobrenome de adulto.

O pior do pesadelo passou. Duvidava. Achava que o pesadelo estava só pra começar.

À margem

o fim do pesadelo pediu endereço novo.

Saiu do hospital, sacou um cigarro e fumou.

Mão juvenil segura cigarro diante de hospital enquanto a fumaça forma uma chave que não encaixa na fechadura desenhada no ar.
Fecho — a chave apareceu antes da casa.